06 junho 2017

Talvez porque...


... goste do cheiro a maresia a infiltrar-se em cada inspiração; talvez porque os tons neutros me brindem com uma acalmia súbita; talvez porque os elementos da natureza me façam perceber aquilo que é essencial; talvez porque a vida em passos lentos me faça ressoar cânticos de paz; talvez porque observar os outros me faça sorver energia alheia; talvez porque a proximidade com o azul do mundo me traga pensamentos de superação; talvez porque seja mais fácil entender quando a simplicidade impera; talvez porque seja mais fácil aceitar quando se entendeu; talvez porque a solitude traga preenchimento; talvez porque contemplar seja o verbo da minha vida; talvez porque do pouco consigo chegar ao muito mas o contrário desmorona; talvez porque haja lugares que enaltecem sentimentos… É que gosto de aqui estar.

31 março 2017

Foi logo após ter terminado ...




... as compras no mercado. Alcofa volumosa, dedos completos em mãos cheias de sacos carregando o almoço ainda em ingredientes. Desci as escadas com uma pressa exagerada. O tempo não me era escasso mas ainda assim mantive o ritmo acelerado de todos os dias.

O confronto com a luz do sol fez-me franzir os olhos num esgar de desconforto. Sem óculos de sol tornava-se quase impossível percorrer o caminho até ao carro. Tanta luminosidade, tornava-me os passos difíceis de concretizar. De olhos quase fechados, virei à esquerda e senti uma mão a enrolar-me o braço que em, esforço, carregava a cesta repleta de verduras frescas. Com o susto, permiti que a cesta tombasse e alguns dos legumes espalharam-se, ao acaso, pela calçada amontoada de pés. Consegui que a maioria deles escapasse ao esmagamento actuando de forma rápida e, num ápice, tinha de novo a cesta cheia encostada ao corpo.

Quando me preparava para encarar quem tão bruscamente me abordara, tendo para lhe oferecer o meu rosto zangado, e um discurso em início de fúria, eis que recebi em troca o maior sorriso que alguma vez vi. Assim, do nada, passei a ter o sorriso de um estranho a ocupar-me, por completo, as retinas. E foi debaixo da sombra ofertada por este sorriso imenso que os meus olhos se sentaram no carro escapando, assim, ao encandeamento da luz forte que alumiava o dia. Do estranho nada mais soube a não a ser a minha desolação por não lhe ter agradecido.

Quando ao almoço contei o sucedido, ninguém acreditou que fosse possível receber a sombra de um sorriso. Eu própria duvidei da credibilidade das minhas palavras, não fossem as pequenas evidências que sustentavam a minha história – pequenas mossas na fruta, a cesta raspada, os óculos de sol deixados em cima da secretária.


Na semana seguinte voltei ao mercado e refiz os acontecimentos ocorridos, na vaga esperança de recuperar a certeza de que não havia imaginado nada. Porém, as circunstâncias não se repetem com a facilidade idealizada. A luz do dia já não era ímpar, os óculos estavam na mala, e até as mãos sustinham agora maior leveza que outrora. Sem que eu tivesse dado conta, tinha anulado as condições para que a sombra fosse oportuna. E ela não surgiu. E não o voltou a fazer.

20 março 2017

Há claramente dois tipos...



... de silêncio. Um mais espinhoso, onde as palavras não ditas são verdadeiras ausências deixando por preencher espaços que serão necessariamente ocupados por hóspedes insuspeitos e indesejados. Este silêncio dói embora por vezes possa parecer que atenua uma dor que ainda seria maior caso aquele fosse quebrado, o que pode ser verdade se atendermos ao facto de que não dizer nada pode sempre ser uma atenuante no conflito que se quer evitar. É, contudo, um claro sinal, de que pouco há para dizer, de que se esgotou a porção que unia os dois mundos mentais de alguém.

Depois há o silêncio florido. Aquele que não precisa de ser mais do que aquilo que já é. Sem som é munido de todas as palavras cúmplices de quem o assiste. É feito de cumplicidade, de apreciações implícitas, de uma partilha que dispensa palavras pela forma tão eloquentemente expressiva com que se manifesta. Este silêncio causa bem-estar, embora nem sempre nos apercebamos disso porque sendo natural parece-nos que não poderá existir outro significado para o silêncio que não este- o de tirar o som às palavras que proferimos.

É só por isto que respeito tanto o silêncio, porque nem sempre é perceptível aquele que guardamos connosco no encontro que temos com os outros. Porque há demasiados enganos na avaliação que se faz destes momentos ficando por perceber se o silêncio que os tomou é o verdadeiro sossego que nos apazigua ou é o desassossego emanado do espaço que ficou vazio.

22 fevereiro 2017

Anotar os encontros...



 ... que sucedem para acreditar que não há irrealizáveis;

Saber distinguir aquilo que existe daquilo que posso fazer acontecer;

Acreditar que, de um fundo permanentemente azul, podem surgir as cores que eu tiver para o pintar;

Olhar para o lado para me desprender dos pontos de vista que me aprisionam;

Aprender a não regressar aos pensamentos que me entontecem;

Voar sem que as asas sejam um atributo.


Se um dia aqui chegar, jamais esquecerei o caminho.  

01 fevereiro 2017

- É como ...



te digo, as diferenças são das coisas mais interessantes que habitam o mundo. Podem dizer o que quiserem mas eu acho que se fosse tudo igual não só a monotonia seria elevada, como acabariam grande parte das profissões e das paixões que dão graça a isto. A economia e o romance passariam a ser das  grandes utopias da humanidade. Os estímulos gerados pelas diferenças são de tal forma enriquecedores que a descoberta se tornou o principal ímpeto da vida. Atenção que por diferenças não me refiro às desigualdades, isso é outra coisa. Quero dizer a heterogeneidade, a diversidade. A biologia, no fundo, já explicava isto, através das teorias da evolução das espécies. A variedade genética, do lado humano, já nem é assunto inovador mas se pensarmos que "metaforicamente" pode existir um genoma em tudo, é fácil extrapolar o conhecimento da selecção natural para outros assuntos menos biológicos. Olha as casas, por exemplo! Cada uma tem o seu genoma, partilham materiais, cálculos de engenharia e conhecimentos de arquitectura, mas cada uma apresenta uma estética que a diferencia das demais. Tomemos como exemplo aquelas duas. Tão próximas e tão diferentes porém tão coerentes na harmonia que provocam. Eu gosto de olhar para elas, precisamente pelas diferenças com que se apresentam. Têm uma constituição genética diferente embora partilhem de janelas, portas, fachadas, canalizações e outros aspectos de construção. E tal como os humanos, envelhecem. Ganham rugas e cores esbatidas, mas com isso também adquirem uma mais forte identidade. Já ouviste falar do "decadent chic"? É um bocado isto, esta decadência que embeleza, que dá personalidade, que dá encanto ao invés de tornar algo obsoleto. É como te digo, eu por mim levava a vida a conhecer o mundo só para lhe anotar as diferenças. Tenho um caderninho já guardado para quando, finalmente, conseguir concretizar este propósito. E tu, o que é que achas?

- Acho que sou diferente de ti. Gosto de alguma normalidade e os padrões sempre me conquistaram.

26 janeiro 2017

A Maria saiu ...




... para passear. O mar serenou para ouvi-la chegar. Os barcos fugiram para mostrar o mar. O sol escondeu-se para não a queimar. As nuvens juntaram-se para tapar o sol.  As árvores balouçaram para amparar o vento. Os carros pararam para a fotografar. A calçada chamou-a para se sentar. Os pássaros voaram para a observar.

A Maria parou para conversar. O mar sossegou para lhe guardar as palavras. Os barcos navegaram para as transportar. O sol espreitou para enche-la de luz. As nuvens suavizaram para que ela visse o céu. As árvores calaram para que os pássaros pousassem. Os carros andaram para que ela não se sentisse só. A calçada suavizou o seu toque frio. Os pássaros pousaram na árvore que se calou. 

E foi aí que a Maria acordou. 


25 janeiro 2017

Londres, 3:



30 PM. Está invariavelmente chuva e por esquecimento deixei o umbrella em casa. Entro no café e sossego quando vejo as cadeiras vazias que se encontram à minha escolha. Emito um


- Great! -

para mim mesmo enquanto escolho aquela que me ampara da minha visão no espelho. Dispo o casaco e retiro o tablet da mochila molhada enquanto procuro, com os olhos, o empregado e emito da minha boca o habitual pedido:

- One latte, please! -

Não espero muito pela bebida fumegante que bebo de um trago, sem queimar a língua. Habituei-me ao quente quando vim para esta cidade fria e faço deste duelo uma missão de vida. Coloco os dedos no teclado enquanto penso

- I have to write! -

ao mesmo tempo em que perscruto as paredes cobertas por quadros, telas, avisos and other stuff.  Espero sempre que aquilo que me rodeia me inspire nas crónicas que escrevo para o jornal. Quase sempre alcanço este propósito. Este café não é excepção. Pego sempre nas conversas dos outros para dar início à minha prosa. Deixo que o vento, o ar, uma voz mais elevada, me tragam o som de palavras alheias, proferidas numa conversa cujo contexto desconheço. É aí que o meu trabalho começa.

- I can call myself a caregiver of other people´s words. -

Desta vez chegam-me palavras que se atropelam numa conversa all about stories. Começo imediatamente a pensar num texto na minha língua materna e a redigi-lo em inglês. Além do quente e do frio, este é o outro duelo que imprimi à minha vida.

- Any word is more beautiful if seen in two languages.-

Ouço ao longe gargalhadas afoitas. Não deixam espaço para mais nada mesmo numa sala onde ainda habitam cadeiras vazias. Na mesa ao meu lado, someone smiles enquanto dirige o olhar na direcção de quem ri. Eu escrevo ainda com mais convicção esperando que a chuva abrande e faça coincidir o céu seco com o remate final do meu texto.

- Perfect! -

A chuva já foi, o artigo está escrito, as gargalhadas mudaram de casa, as cadeiras estão agora cheias de corpos sedentos, a mochila já enxugou, eu exibo um esgar orgulhoso de quem terminou uma tarefa.

- That´s all about disclosure!-

Londres. 7:30 PM

23 janeiro 2017

Enquanto desço...


... a arriba, esqueço que o mundo existe. Olho para os pés como se fossem únicos na imensidão do universo. Não é só o medo de cair que me impele a direccionar o olhar na vertical, é a concentração exigida pelo momento que me espera e que antecipadamente me influencia.

Chego à areia e o mundo volta. Assim, como as rochas que se tornam pintas nas areias da serra. Assim como o mar que tem uma cor que quero desconhecer o nome para apenas relembrar. Não quero catalogar aquilo que me assoberba. Chamá-lo de verde ou azul é reduzi-lo em tudo aquilo que ele é.

Inspiro e guardo nos pulmões o ar repleto de sal. Expiro e deixo que fujam os dissabores dos dias. Entre as fases da respiração, entoo uma canção só minha, quieta aos ouvidos dos outros, exuberante no corpo que me carrega.

Nunca me canso de pousar aqui a minha alma e com ela o corpo que deixa de ter peso e só flutua. Os sentidos aquiesçam em deixar que minha consciência se arrume por aqui, por entre os espaços das rochas em que mal cabem pés, por entre a transparência da água onde se descobrem cardumes.

O tempo passa...

Volto a subir a arriba e o mundo é agora outro. Em mim adormece uma paz que quero manter em estado onírico. Até ela acordar terei a paz que quero guardar no mundo. Quando ela despertar, voltarei aos sobressaltos e até que desça a arriba novamente, serei tumulto.