23 janeiro 2017

Enquanto desço...


... a arriba, esqueço que o mundo existe. Olho para os pés como se fossem únicos na imensidão do universo. Não é só o medo de cair que me impele a direccionar o olhar na vertical, é a concentração exigida pelo momento que me espera e que antecipadamente me influencia.

Chego à areia e o mundo volta. Assim, como as rochas que se tornam pintas nas areias da serra. Assim como o mar que tem uma cor que quero desconhecer o nome para apenas relembrar. Não quero catalogar aquilo que me assoberba. Chamá-lo de verde ou azul é reduzi-lo em tudo aquilo que ele é.

Inspiro e guardo nos pulmões o ar repleto de sal. Expiro e deixo que fujam os dissabores dos dias. Entre as fases da respiração, entoo uma canção só minha, quieta aos ouvidos dos outros, exuberante no corpo que me carrega.

Nunca me canso de pousar aqui a minha alma e com ela o corpo que deixa de ter peso e só flutua. Os sentidos aquiesçam em deixar que minha consciência se arrume por aqui, por entre os espaços das rochas em que mal cabem pés, por entre a transparência da água onde se descobrem cardumes.

O tempo passa...

Volto a subir a arriba e o mundo é agora outro. Em mim adormece uma paz que quero manter em estado onírico. Até ela acordar terei a paz que quero guardar no mundo. Quando ela despertar, voltarei aos sobressaltos e até que desça a arriba novamente, serei tumulto.

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