26 janeiro 2017

A Maria saiu ...




... para passear. O mar serenou para ouvi-la chegar. Os barcos fugiram para mostrar o mar. O sol escondeu-se para não a queimar. As nuvens juntaram-se para tapar o sol.  As árvores balouçaram para amparar o vento. Os carros pararam para a fotografar. A calçada chamou-a para se sentar. Os pássaros voaram para a observar.

A Maria parou para conversar. O mar sossegou para lhe guardar as palavras. Os barcos navegaram para as transportar. O sol espreitou para enche-la de luz. As nuvens suavizaram para que ela visse o céu. As árvores calaram para que os pássaros pousassem. Os carros andaram para que ela não se sentisse só. A calçada suavizou o seu toque frio. Os pássaros pousaram na árvore que se calou. 

E foi aí que a Maria acordou. 


25 janeiro 2017

Londres, 3:



30 PM. Está invariavelmente chuva e por esquecimento deixei o umbrella em casa. Entro no café e sossego quando vejo as cadeiras vazias que se encontram à minha escolha. Emito um


- Great! -

para mim mesmo enquanto escolho aquela que me ampara da minha visão no espelho. Dispo o casaco e retiro o tablet da mochila molhada enquanto procuro, com os olhos, o empregado e emito da minha boca o habitual pedido:

- One latte, please! -

Não espero muito pela bebida fumegante que bebo de um trago, sem queimar a língua. Habituei-me ao quente quando vim para esta cidade fria e faço deste duelo uma missão de vida. Coloco os dedos no teclado enquanto penso

- I have to write! -

ao mesmo tempo em que perscruto as paredes cobertas por quadros, telas, avisos and other stuff.  Espero sempre que aquilo que me rodeia me inspire nas crónicas que escrevo para o jornal. Quase sempre alcanço este propósito. Este café não é excepção. Pego sempre nas conversas dos outros para dar início à minha prosa. Deixo que o vento, o ar, uma voz mais elevada, me tragam o som de palavras alheias, proferidas numa conversa cujo contexto desconheço. É aí que o meu trabalho começa.

- I can call myself a caregiver of other people´s words. -

Desta vez chegam-me palavras que se atropelam numa conversa all about stories. Começo imediatamente a pensar num texto na minha língua materna e a redigi-lo em inglês. Além do quente e do frio, este é o outro duelo que imprimi à minha vida.

- Any word is more beautiful if seen in two languages.-

Ouço ao longe gargalhadas afoitas. Não deixam espaço para mais nada mesmo numa sala onde ainda habitam cadeiras vazias. Na mesa ao meu lado, someone smiles enquanto dirige o olhar na direcção de quem ri. Eu escrevo ainda com mais convicção esperando que a chuva abrande e faça coincidir o céu seco com o remate final do meu texto.

- Perfect! -

A chuva já foi, o artigo está escrito, as gargalhadas mudaram de casa, as cadeiras estão agora cheias de corpos sedentos, a mochila já enxugou, eu exibo um esgar orgulhoso de quem terminou uma tarefa.

- That´s all about disclosure!-

Londres. 7:30 PM

23 janeiro 2017

Enquanto desço...


... a arriba, esqueço que o mundo existe. Olho para os pés como se fossem únicos na imensidão do universo. Não é só o medo de cair que me impele a direccionar o olhar na vertical, é a concentração exigida pelo momento que me espera e que antecipadamente me influencia.

Chego à areia e o mundo volta. Assim, como as rochas que se tornam pintas nas areias da serra. Assim como o mar que tem uma cor que quero desconhecer o nome para apenas relembrar. Não quero catalogar aquilo que me assoberba. Chamá-lo de verde ou azul é reduzi-lo em tudo aquilo que ele é.

Inspiro e guardo nos pulmões o ar repleto de sal. Expiro e deixo que fujam os dissabores dos dias. Entre as fases da respiração, entoo uma canção só minha, quieta aos ouvidos dos outros, exuberante no corpo que me carrega.

Nunca me canso de pousar aqui a minha alma e com ela o corpo que deixa de ter peso e só flutua. Os sentidos aquiesçam em deixar que minha consciência se arrume por aqui, por entre os espaços das rochas em que mal cabem pés, por entre a transparência da água onde se descobrem cardumes.

O tempo passa...

Volto a subir a arriba e o mundo é agora outro. Em mim adormece uma paz que quero manter em estado onírico. Até ela acordar terei a paz que quero guardar no mundo. Quando ela despertar, voltarei aos sobressaltos e até que desça a arriba novamente, serei tumulto.