31 março 2017

Foi logo após ter terminado ...




... as compras no mercado. Alcofa volumosa, dedos completos em mãos cheias de sacos carregando o almoço ainda em ingredientes. Desci as escadas com uma pressa exagerada. O tempo não me era escasso mas ainda assim mantive o ritmo acelerado de todos os dias.

O confronto com a luz do sol fez-me franzir os olhos num esgar de desconforto. Sem óculos de sol tornava-se quase impossível percorrer o caminho até ao carro. Tanta luminosidade, tornava-me os passos difíceis de concretizar. De olhos quase fechados, virei à esquerda e senti uma mão a enrolar-me o braço que em, esforço, carregava a cesta repleta de verduras frescas. Com o susto, permiti que a cesta tombasse e alguns dos legumes espalharam-se, ao acaso, pela calçada amontoada de pés. Consegui que a maioria deles escapasse ao esmagamento actuando de forma rápida e, num ápice, tinha de novo a cesta cheia encostada ao corpo.

Quando me preparava para encarar quem tão bruscamente me abordara, tendo para lhe oferecer o meu rosto zangado, e um discurso em início de fúria, eis que recebi em troca o maior sorriso que alguma vez vi. Assim, do nada, passei a ter o sorriso de um estranho a ocupar-me, por completo, as retinas. E foi debaixo da sombra ofertada por este sorriso imenso que os meus olhos se sentaram no carro escapando, assim, ao encandeamento da luz forte que alumiava o dia. Do estranho nada mais soube a não a ser a minha desolação por não lhe ter agradecido.

Quando ao almoço contei o sucedido, ninguém acreditou que fosse possível receber a sombra de um sorriso. Eu própria duvidei da credibilidade das minhas palavras, não fossem as pequenas evidências que sustentavam a minha história – pequenas mossas na fruta, a cesta raspada, os óculos de sol deixados em cima da secretária.


Na semana seguinte voltei ao mercado e refiz os acontecimentos ocorridos, na vaga esperança de recuperar a certeza de que não havia imaginado nada. Porém, as circunstâncias não se repetem com a facilidade idealizada. A luz do dia já não era ímpar, os óculos estavam na mala, e até as mãos sustinham agora maior leveza que outrora. Sem que eu tivesse dado conta, tinha anulado as condições para que a sombra fosse oportuna. E ela não surgiu. E não o voltou a fazer.

20 março 2017

Há claramente dois tipos...



... de silêncio. Um mais espinhoso, onde as palavras não ditas são verdadeiras ausências deixando por preencher espaços que serão necessariamente ocupados por hóspedes insuspeitos e indesejados. Este silêncio dói embora por vezes possa parecer que atenua uma dor que ainda seria maior caso aquele fosse quebrado, o que pode ser verdade se atendermos ao facto de que não dizer nada pode sempre ser uma atenuante no conflito que se quer evitar. É, contudo, um claro sinal, de que pouco há para dizer, de que se esgotou a porção que unia os dois mundos mentais de alguém.

Depois há o silêncio florido. Aquele que não precisa de ser mais do que aquilo que já é. Sem som é munido de todas as palavras cúmplices de quem o assiste. É feito de cumplicidade, de apreciações implícitas, de uma partilha que dispensa palavras pela forma tão eloquentemente expressiva com que se manifesta. Este silêncio causa bem-estar, embora nem sempre nos apercebamos disso porque sendo natural parece-nos que não poderá existir outro significado para o silêncio que não este- o de tirar o som às palavras que proferimos.

É só por isto que respeito tanto o silêncio, porque nem sempre é perceptível aquele que guardamos connosco no encontro que temos com os outros. Porque há demasiados enganos na avaliação que se faz destes momentos ficando por perceber se o silêncio que os tomou é o verdadeiro sossego que nos apazigua ou é o desassossego emanado do espaço que ficou vazio.