... as
compras no mercado. Alcofa volumosa, dedos completos em mãos cheias de sacos
carregando o almoço ainda em ingredientes. Desci as escadas com uma pressa
exagerada. O tempo não me era escasso mas ainda assim mantive o ritmo acelerado
de todos os dias.
O confronto com a luz do sol fez-me
franzir os olhos num esgar de desconforto. Sem óculos de sol tornava-se quase
impossível percorrer o caminho até ao carro. Tanta luminosidade, tornava-me os
passos difíceis de concretizar. De olhos quase fechados, virei à esquerda e
senti uma mão a enrolar-me o braço que em, esforço, carregava a cesta repleta
de verduras frescas. Com o susto, permiti que a cesta tombasse e alguns dos
legumes espalharam-se, ao acaso, pela calçada amontoada de pés. Consegui que a
maioria deles escapasse ao esmagamento actuando de forma rápida e, num ápice,
tinha de novo a cesta cheia encostada ao corpo.
Quando me preparava para encarar
quem tão bruscamente me abordara, tendo para lhe oferecer o meu rosto zangado,
e um discurso em início de fúria, eis que recebi em troca o maior sorriso que
alguma vez vi. Assim, do nada, passei a ter o sorriso de um estranho a
ocupar-me, por completo, as retinas. E foi debaixo da sombra ofertada por este
sorriso imenso que os meus olhos se sentaram no carro escapando, assim, ao
encandeamento da luz forte que alumiava o dia. Do estranho nada mais soube a
não a ser a minha desolação por não lhe ter agradecido.
Quando ao almoço contei o
sucedido, ninguém acreditou que fosse possível receber a sombra de um sorriso.
Eu própria duvidei da credibilidade das minhas palavras, não fossem as pequenas
evidências que sustentavam a minha história – pequenas mossas na fruta, a cesta
raspada, os óculos de sol deixados em cima da secretária.
Na semana seguinte voltei ao
mercado e refiz os acontecimentos ocorridos, na vaga esperança de recuperar a
certeza de que não havia imaginado nada. Porém, as circunstâncias não se repetem
com a facilidade idealizada. A luz do dia já não era ímpar, os óculos estavam
na mala, e até as mãos sustinham agora maior leveza que outrora. Sem que eu
tivesse dado conta, tinha anulado as condições para que a sombra fosse oportuna.
E ela não surgiu. E não o voltou a fazer.

