20 março 2017

Há claramente dois tipos...



... de silêncio. Um mais espinhoso, onde as palavras não ditas são verdadeiras ausências deixando por preencher espaços que serão necessariamente ocupados por hóspedes insuspeitos e indesejados. Este silêncio dói embora por vezes possa parecer que atenua uma dor que ainda seria maior caso aquele fosse quebrado, o que pode ser verdade se atendermos ao facto de que não dizer nada pode sempre ser uma atenuante no conflito que se quer evitar. É, contudo, um claro sinal, de que pouco há para dizer, de que se esgotou a porção que unia os dois mundos mentais de alguém.

Depois há o silêncio florido. Aquele que não precisa de ser mais do que aquilo que já é. Sem som é munido de todas as palavras cúmplices de quem o assiste. É feito de cumplicidade, de apreciações implícitas, de uma partilha que dispensa palavras pela forma tão eloquentemente expressiva com que se manifesta. Este silêncio causa bem-estar, embora nem sempre nos apercebamos disso porque sendo natural parece-nos que não poderá existir outro significado para o silêncio que não este- o de tirar o som às palavras que proferimos.

É só por isto que respeito tanto o silêncio, porque nem sempre é perceptível aquele que guardamos connosco no encontro que temos com os outros. Porque há demasiados enganos na avaliação que se faz destes momentos ficando por perceber se o silêncio que os tomou é o verdadeiro sossego que nos apazigua ou é o desassossego emanado do espaço que ficou vazio.

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